Mãe de Menino

segunda-feira, 5 de junho de 2017 2 comentários


            Por vezes é tão difícil ser mãe de menino neste mundo machista, porque você se esforça para passar valores positivos para o seu filho, mas não tem como impedi-lo de assimilar outras visões que colocam para ele no dia a dia, como na rua, na escola, as vezes dentro da própria família. Ao fim, resta a nós, termos muita paciência e perseverança na nossa missão de não criarmos homens machistas.
            O primeiro desafio foi a questão de brinquedos, tudo parece ser dividido entre “meninos” e “meninas”, nas lojas é desta forma, a seção cor de rosa e a seção dos meninos, como se um não pudesse transitar no universo do outro. Logo comecei a mostrar para o meu filho que brinquedos são para crianças, não importa se são meninos ou se são meninas, a questão é brincar, aprender, compartilhar. Mas logo vêm os amigos da escola que dizem que carrinhos são de meninos e bonecas são de meninas, eu por outro lado desconstruindo esta idéia quase que diariamente.
            Nesta última coleção de heróis do McDonalds, os atendentes insistem em empurrar os brinquedos “de meninos” e de “meninas”, mas fiz questão de comprar todos para ele, até para que ele saiba que existem também heroínas. Lembro de uma vez que a atendente disse “desculpe, mas não temos brinquedo para ele”, eu retruquei “acabaram todos os brinquedos?”, “não, mas só temos de meninas”, “por favor, me mostre quais você tem que ele irá escolher” e ele todo feliz escolheu a Barbie que andava a cavalo, afinal para ele é apenas um brinquedo.
            Estes dias ele chegou em casa dizendo que um amiguinho da escola disse que rosa era cor de menina e ele já retrucou dizendo que rosa era de menino e de menina, que qualquer um poderia usar, isso me deu um orgulho no coração, mas ao mesmo tempo sei que este discurso irá se repetir milhões de vezes. Certa vez estávamos no mercado e ele escolheu o Kinder Ovo rosa, porque vinha uma fada e ele naturalmente queria uma fada, mas a mãe de outro menino logo atrás de nós retrucou para o filho que ia pegando um rosa também “que isso menino?! Está virando garotinha?” e a criança quase ficou sem seu Kinder Ovo, porque a mãe não achava um azul para o seu filho e eu fiquei apenas olhando aquela cena, quando ela percebeu que eu estava observando, começou a tratar meu filho como menina e eu fiz questão de falar o nome dele em alto e bom tom, para deixar claro que ele é menino e isso não o faz menos menino por querer um ovo rosa.
            Eu sei que ele provavelmente será criticado por ter heroínas, por falar que rosa é cor de menino e menina, por gostar de Pequena Sereia, mas ao fim estas críticas que ele receberá, não posso tratá-las como uma dor, mas sim um amadurecimento de conceitos que ao longo da vida farão diferença para o homem que ele se tornará no futuro. Porque ele saberá que homem, pai, independente da orientação sexual que tenha, é tão responsável por limpar a casa, por cuidar das crianças, por auxiliar na rotina da casa e mais do que tudo, eu quero que ele seja uma pessoa independente, capaz de gerir sua própria casa, suas necessidades.
            Por estas coisas ele me ajuda na cozinha, ensino para ele o básico de culinária, ele tem que tirar o prato, pegar a mamadeira, ele pode escolher o brinquedo que quiser, a roupa que quiser, pois estas coisas não o fazem menos “menino”, mas tão somente mostram a ele que ter opinião própria, ajudar, ser prestativo, zelar por sua casa, pelo meio ambiente, são coisas que qualquer pessoa DEVE fazer, não é um mero favor, mas uma questão de responsabilidade e personalidade.
            Sei que ainda irei repetir milhões de vezes vários conceitos para ele e que por vezes irei acolhê-lo por estar chateado por ser criticado por estes mesmos conceitos, mas para mim esta é a única forma de criar um homem consciente, capaz, responsável, maduro, que será um pai efetivamente e não alguém que “paga as contas”, “que brinca no fim de semana”, que será alguém que zela por suas conquistas, pois sabe o quanto é difícil manter a rotina de uma casa,  a manutenção de um carro, que sabe que “papel higiênico não nasce no banheiro”, inevitavelmente se você não o compra, ele não aparece magicamente.
            Porém creio que estes pequenos sacrifícios serão recompensados um dia, porque sei que ele será uma pessoa melhor, mais madura, mais ciente do seu papel no mundo e na sociedade, sem estas amarras machistas, que no fundo fazem mal tanto para homens quanto para mulheres. E assim, vamos vencendo uma batalha a cada dia, porque ser mãe e dar valores para uma criança, isso é o que uma “mãe maravilha” faz todos os dias.


P.s.: ele me chama de “Mãe Maravilha”, porque eu sou a “Mulher Maravilha”, ele é o “Flash” Thor e o papai é o “Batman”, ao menos no universo DC rs

2 comentários:

  • Ardat Lili disse...

    E Gael tem milhões desses ovos... Roxo, rosa, verde, vermelho, de coração, minions... Adora Frozen, princesinha Sofia, Masha e o Urso, Teen Titans, Pocoyo, Peppa...tem carrinho, ursinhos, pelúcia de corujinha. E sabe pq? Pq tudo é brinquedo DE CRIANÇA!!!
    BB

  • Luanin disse...

    Exatamente Ardat, vejo da mesma forma! Não existe classificação para brinquedos, ou cores para roupas, existe sim crianças explorando e conhecendo o mundo! Se desde pequenos começamos a criar limitações para o que eles podem ser, ou como podem sentir, estamos limitando seus horizontes e repetindo estes padrões mesquinhos. Seremos criticadas? Várias vezes, mas sei que estamos no caminho correto!

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