Por vezes me surpreendo como
somos “programadas” para não termos amigas reais, não que não exista amizade
real entre mulheres, mas incutem em nós uma crença que devemos ficar sempre
atentas, como se a qualquer deslize nossos parceiros Irão sucumbir à tentação
de nossas amigas, ou que qualquer pessoa que se aproxime possa nos soar como
uma ameaça, ou a forma que nos rendemos a ciúmes, inveja, comparações tão
tolas.
Somos reféns de nossas próprias
inseguranças, se eu fosse mais alta, se eu fosse mais magra, se eu fosse mais
inteligente, nunca somos o bastante e logo qualquer pessoa que se aproxima do
nosso ideal se torna uma ameaça. Por que somos tão frágeis? Por que tememos
tanto a aproximação de outras mulheres? Especialmente se elas são bonitas.
É tão engraçado perceber que ao
invés de nos apoiarmos, nos vemos sempre como antagonistas, como lados opostos
de uma única moeda, mas vejam... se somos traída e traidora, o erro está em nós
ou em quem traiu? Por que sentimos compaixão por eles e não por nós mesmas? Por
que este excesso de posse? Meu marido, minha mulher, como se um sentimento nos
desse direito sobre o outro e o dever de defender aquele território.
Perdemos tanto nestas pequenas
guerras de poder, mulheres que podiam ser amigas, mãe e filha que poderiam ser
parceiras, vizinhas que poderiam ser cúmplices, ou tão somente compartilhar
suas dores e desamores, porque já há tanto que nos separa, que nos mutila, por
que não podemos nos unir ao menos em nossas semelhanças? Sejam elas grandes ou
pequenas, todas nós conhecemos estas “dores” em maior ou menor intensidade.
Se procurássemos nos olhar mais
atentamente enxergaríamos as semelhanças além das mágoas, além das dores, além
da imagem perfeita, mas a imagem que esconde o desejo por liberdade, por
igualdade, por respeito. Somos tantas, mas divididas não somos nada.
Deveríamos nos unir nem que fosse
para ler um poema, cantar uma canção, ensinar o que muitas vezes aprendemos
através do erro e convicção. Tantos de nossos mistérios estão sendo perdidos
como tecer juntas, seja uma colcha de retalhos, a mais bela tapeçaria, ou tão
somente sonhos vãos de quem esqueceu de como fazê-lo.
Qual foi a última vez que você de
fato olhou para outra mulher? Não medindo, mas acolhendo e compreendendo a sua
realidade, vida, medos, inseguranças, sabores e dores. Qual foi a última vez
que abraçou a totalidade destas mulheres que cruzam o seu caminho? Parou para ouvi-las
verdadeiramente? Há sabedoria em cada traço, em cada história, em cada memória
e aos poucos deixamos de contá-las, ouvi-las, cantá-las... até que um dia
esqueceremos, esqueceremos a nossa essência, sempre tão ocupadas em vencê-los,
em uma igualdade que vem em tornarmos a nós mesmas semelhantes a eles.
Por vezes creio que a doçura, o
nutrir, o acolher, a inspiração, o sonho, o tecer dos fios, o tecer da vida, o
olhar que apazigua, todos os nossos dons, estão a se perder e pouco a pouco nos
tornamos áridas e incapazes de ver a irmandade a qual deveríamos pertencer.




2 comentários:
E quando a gente se perde, o q fazer ? Como achar o caminho de volta?
BB.
Olharmos para dentro, encontramos aquela voz que ressoa dentro de nós, que jamais poderá ser esquecida, pois não adianta buscar o caminho fora de nós, uma vez que ele está em nosso sangue, em nossa história, em nossa memória, cantando dentro de nós mesmas, por isso o que precisamos é parar e sentar pra ouvir a nossa própria voz. Não aquela repleta de medos e inseguranças, ferida, mas aquela que está em nossos ossos, no poder de ser mulher.
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