Divagando

sexta-feira, 2 de junho de 2017 2 comentários


Por vezes me surpreendo como somos “programadas” para não termos amigas reais, não que não exista amizade real entre mulheres, mas incutem em nós uma crença que devemos ficar sempre atentas, como se a qualquer deslize nossos parceiros Irão sucumbir à tentação de nossas amigas, ou que qualquer pessoa que se aproxime possa nos soar como uma ameaça, ou a forma que nos rendemos a ciúmes, inveja, comparações tão tolas. 

Somos reféns de nossas próprias inseguranças, se eu fosse mais alta, se eu fosse mais magra, se eu fosse mais inteligente, nunca somos o bastante e logo qualquer pessoa que se aproxima do nosso ideal se torna uma ameaça. Por que somos tão frágeis? Por que tememos tanto a aproximação de outras mulheres? Especialmente se elas são bonitas. 

É tão engraçado perceber que ao invés de nos apoiarmos, nos vemos sempre como antagonistas, como lados opostos de uma única moeda, mas vejam... se somos traída e traidora, o erro está em nós ou em quem traiu? Por que sentimos compaixão por eles e não por nós mesmas? Por que este excesso de posse? Meu marido, minha mulher, como se um sentimento nos desse direito sobre o outro e o dever de defender aquele território.

Perdemos tanto nestas pequenas guerras de poder, mulheres que podiam ser amigas, mãe e filha que poderiam ser parceiras, vizinhas que poderiam ser cúmplices, ou tão somente compartilhar suas dores e desamores, porque já há tanto que nos separa, que nos mutila, por que não podemos nos unir ao menos em nossas semelhanças? Sejam elas grandes ou pequenas, todas nós conhecemos estas “dores” em maior ou menor intensidade.

Se procurássemos nos olhar mais atentamente enxergaríamos as semelhanças além das mágoas, além das dores, além da imagem perfeita, mas a imagem que esconde o desejo por liberdade, por igualdade, por respeito. Somos tantas, mas divididas não somos nada.

Deveríamos nos unir nem que fosse para ler um poema, cantar uma canção, ensinar o que muitas vezes aprendemos através do erro e convicção. Tantos de nossos mistérios estão sendo perdidos como tecer juntas, seja uma colcha de retalhos, a mais bela tapeçaria, ou tão somente sonhos vãos de quem esqueceu de como fazê-lo.

Qual foi a última vez que você de fato olhou para outra mulher? Não medindo, mas acolhendo e compreendendo a sua realidade, vida, medos, inseguranças, sabores e dores. Qual foi a última vez que abraçou a totalidade destas mulheres que cruzam o seu caminho? Parou para ouvi-las verdadeiramente? Há sabedoria em cada traço, em cada história, em cada memória e aos poucos deixamos de contá-las, ouvi-las, cantá-las... até que um dia esqueceremos, esqueceremos a nossa essência, sempre tão ocupadas em vencê-los, em uma igualdade que vem em tornarmos a nós mesmas semelhantes a eles.

Por vezes creio que a doçura, o nutrir, o acolher, a inspiração, o sonho, o tecer dos fios, o tecer da vida, o olhar que apazigua, todos os nossos dons, estão a se perder e pouco a pouco nos tornamos áridas e incapazes de ver a irmandade a qual deveríamos pertencer.



2 comentários:

  • Luanin disse...

    Olharmos para dentro, encontramos aquela voz que ressoa dentro de nós, que jamais poderá ser esquecida, pois não adianta buscar o caminho fora de nós, uma vez que ele está em nosso sangue, em nossa história, em nossa memória, cantando dentro de nós mesmas, por isso o que precisamos é parar e sentar pra ouvir a nossa própria voz. Não aquela repleta de medos e inseguranças, ferida, mas aquela que está em nossos ossos, no poder de ser mulher.

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