Quero deixar claro antes de mais
nada que esta não é uma opinião médica, que não tem base em algum estudo, mas
sim reflexões do ponto de vista de alguém que tem esta doença e que teve que
aprender a lidar com ela.
O primeiro ponto é que sim,
depressão é uma doença, assim como qualquer outra doença precisa de tratamento
adequado, acompanhamento médico, acompanhamento psiquiátrico e psicológico e
embora eu acredite que o acompanhamento psicológico é indispensável, do meu
ponto de vista pessoal, nem sempre este é suficiente para tirar a pessoa das
crises e muitas vezes é necessário o uso de medicamentos para auxiliar na
estabilização do cérebro.
Assim, temos que nos atentar que
a depressão é um estado físico, psicológico, onde por questões internas ou
externas, mas muitas vezes biológicas, o cérebro que é responsável pelo
equilíbrio das reações químicas que mantém o nosso organismo em funcionamento,
não é capaz de fazer isso adequadamente. Por isso a entrada de medicamento para
que esta “regulação” seja feita e faça com que estas sinapses sejam feitas da
maneira correta. Porém, como cada organismo funciona de uma maneira peculiar,
muitas vezes demora para acertar o diagnóstico correto, a medicação correta, a
dosagem certa, assim como o organismo processar estes medicamento e começar a
funcionar da maneira que deve. Vale ressaltar aqui que bebidas alcoólicas, má
alimentação, entre outros comportamentos podem retardar ou até inibir estes
efeitos, por isso não é um mero ato de tomar medicamentos.
Quanto a medicação tem dois
pontos relevantes, cada pessoa processa os medicamentos de uma forma peculiar,
assim para alguns os efeitos serão quase que “imediatos”, mas normalmente para
que o princípio ativo aja, leva em média de um mês a três meses para que seu
ciclo se complete e sintamos efetivamente os efeitos da medicação em nosso
organismo. Mas o que julgo mais importante é saber que a medicação não é uma
pílula milagrosa que a partir do momento que você tomar todos os seus problemas
irão embora magicamente, não isso não acontece, uma coisa é trazer o equilíbrio
que seu cérebro necessita para processar as coisas corretamente, outra coisa é
aprendermos a lidar com nossas frustrações, mágoas, sentimentos, tristezas.
Anti depressivo não é a pílula da felicidade, é um regulador de humor, para que
sejamos capazes de lidar com nós mesmos e nossos sentimentos.
Muitas vezes a dificuldade de se
traçar um diagnóstico não está vinculado a capacidade do médico, mas a clareza
com que a pessoa doente expressa seus escapes, angústias, sentimentos, da
maneira com a qual é capaz de expor seus “demônios”, se não deixamos claro para
o médico nossos sentimentos, aflições, dificuldades, veja ele não está dentro
da nossa cabeça, logo não tem como saber exatamente o que nos aflige. Não
abordar certos sentimentos, angústias, medos, desejos de extinguir a vida, ou
até mesmo negações que fazemos a nós mesmos, isso apenas torna mais difícil o
trabalho do médico, que está ali não para colocar uma tarja em você, mas
auxiliá-lo a compreender estes altos e baixos, sentimentos e assim buscar a
medicação mais apropriada.
Quando falei ali em cima da
importância da terapia é justamente porque não existe pílula da felicidade,
assim como a doença depressão normalmente está acompanhada de outros
transtornos como ansiedade, que fazem com que tenhamos dificuldade de lidar com
o presente, que estejamos constantemente pensando no que pode acontecer e
traçando mapas exaustivos de situações, acontecimentos, medos, que não são reais,
mas que nos angustiam e que nos fazem ficar “rodando em círculos”. Ao meu ver a
depressão deve ser tratada juntamente com acompanhamento psicológico,
justamente porque é o terapeuta, o psicólogo que nos ajudará a desenhar este
mapa de nós mesmos, a compreendermos quais são nossos gatilhos, medos, feridas,
o que dispara em nós crises de ansiedade, de depressão, desmotivam a nossa vida
em sociedade, a lidar com nossos problemas e por aí vai. Assim se meramente
tratamos medicamentosamente, corremos sério risco de repetirmos os nossos
padrões, de voltarmos sempre ao mesmo ponto, cometermos os mesmos erros e assim
voltamos aquele círculo vicioso e ao invés de sairmos das crises, nos
conduziremos novamente a elas, de novo e de novo e de novo. O que há longo prazo
pode nos dar uma sensação de “impotência” diante da vida, uma sensação de não
sou capaz de lidar, não consigo vencer esta doença, então qual é o sentido de
continuar?
Isso me faz pensar sobre outros
pontos, uma pessoa com depressão, aí estou falando em crise, ela sofre de uma
perda de vitalidade, de esperança, de expectativa da vida, do mundo, de si
mesmo, assim sendo estas opiniões formadas por estas pessoas, naquele momento
não são reais, ou seja, elas não estão vendo naquele momento o mundo tal qual
ele é, a impressão que elas têm da vida, do mundo, de si mesmas, é irreal, pois
está mascarada justamente por esta deficiência do cérebro, assim tudo parece
estar sobre a nuance, sobre o efeito de um filtro, onde tudo se torna
desinteressante, opaco, sem brilho ou luz.
O que quero dizer é que quando
alguém está neste estágio, toda a visão e percepção dela está prejudicada,
então o que a pessoa NÃO precisa é que reforcemos estes pensamentos, visões,
enfoques, porque não são enfoques reais. Vale lembrar que emoções são reações
químicas, assim sendo não temos qualquer controle racional sobre elas, então se
a pessoa tem medo irracional de algo, alguém, ou situação, não é algo como
“controle seu medo”, “controle suas emoções”, “seja forte”, porque nada disso é
racional, intencional, são reações químicas prejudicadas e alimentadas por um
estado mental ruim. Tudo que uma pessoa com depressão não precisa é sentir pena
de si mesmo, ou que sintam pena dela, ou que simplesmente a coloquem no colo e
a acolham como se fosse uma “coitada”. É uma pessoa doente, que precisa de
tratamento.
Tratamento, este é um ponto que é
importante também, fazendo uma analogia com quem tem câncer, ninguém cura de
câncer por mera boa vontade e boas vibrações, mas toda prática que auxilie a
controlar os medos, angústias, ansiedade, que nos auxilie a ensinar novos
caminhos para o nosso cérebro, pois sim ele aprende constantemente e pode
inclusive aprender novas formas de lidar com sensações, medos, angústias,
tristezas. Então, da mesma forma que para alguém com doenças debilitantes como
depressão e câncer, é importante estimular uma visão “positiva” sobre a
realidade e buscar métodos que auxiliem no controle destas debilidades, seja de
alimentação, sono, pensamentos cíclicos e viciosos, por isso tratamentos como
acupuntura, meditação, exercícios físicos frequentes, entre outras tantas
terapias holísticas e naturais, pois elas auxiliam o organismo a reagir, nos
dão ferramentas para lidarmos com os momentos de crise e a termos mais
“controle” sobre nós mesmos.
Porém, não podemos esquecer que
assim como com outras doenças quando a medicação é necessária, é necessária
muita responsabilidade com esta parte. Eu não sou médica, você não é médico, o
médico passou no mínimo 8 anos estudando para auxiliar as pessoas em suas
doenças, então se ele passa um medicamento, uma dosagem, uma orientação, não é
porque ele está te usando como rato de laboratório, mas porque ele estudou para
estar ali, então auto medicação é extremamente desaconselhável, assim como não
tomar a medicação corretamente, aumentar ou diminuir doses por conta própria.
Os medicamentos existem para ajudar e por isso devem ser usados com
responsabilidade e de acordo com a prescrição médica e não como pano de fundo
para não lidarmos com nossos sentimentos, angústias, dificuldades.
Ao fazermos uso da auto medicação
um hábito, um vício, estamos roubando do nosso organismo a oportunidade de
entrar em equilíbrio, estamos boicotando o nosso tratamento e parando de
observar sensações, sentimentos, pensamentos, que muitas vezes são os gatilhos
que desencadeiam tudo, ou seja, estamos nos cegando para nossa própria cura.
Fora isso, como disse lá em cima, medicação não é pílula de felicidade, assim
sendo continuaremos sentindo raiva, tristeza, sentimentos “ruins” não
desaparecem, assim como não são um “dom” dado a pessoas com depressão, são
sentimentos cotidianos e portanto fazem parte da nossa realidade, assim sendo
temos que lidar com eles, como com quaisquer outros sentimentos.
O que a depressão faz é tornar
tudo com uma carga maior, uma maior dificuldade de lidarmos com estes
sentimentos, nos traz apatia, falta de perspectiva, nos tira a vitalidade,
aquele impulso de nos movimentarmos, mas uma vez medicados esta apatia tende a
desaparecer, contudo se alguém nos magoa, sentiremos tristeza, se alguém nos
agride, sentiremos raiva, se algo que fazemos não dá certo, nos sentiremos
frustrados, isso é uma dádiva de todo ser humano, o que cada um precisa
aprender é a lidar com suas sensações, sentimentos, frustrações e angústias,
pois o mundo não é perfeito, nós não somos perfeitos, logo aprender a lidar com
nossos “demônios”, com as imperfeições do mundo e extrair das experiências o
que há de melhor nelas, é algo que cabe a nós aprendermos. Não existe uma medicação
ou tratamento que irá nos trazer isso, isso é parte de um trabalho de auto
conhecimento, de auto aceitação, de aprendermos a sermos mais resilientes,
tornamos nossos erros e frustrações uma fonte de aprendizado, amadurecimento e
“fortaleza”.
O que é difícil de lidar com
doenças mentais, doenças debilitantes, é que não basta somente tomar a
medicação correta, faz-se necessário buscar maneiras de nutrir nossa mente,
corpo, espírito de uma maneira positiva, de aprender com cada gatilho, com cada
“queda”, com cada luto, porque estas são sensações humanas e pelas quais
passamos, passaremos todos nós, em maior ou menor grau. O que muda para algumas
pessoas é que elas tornam tudo isso uma fonte de aprendizado, de fortalecimento
e outras passam a tratar a doença, os sintomas como “bichinhos de estimação” ou
como uma maneira de ter a atenção do mundo, das pessoas, de barganhar pelo o
que querem.
A depressão não é para ser
tratada como um bicho que se alimenta, ou algo que você use como “ah eu nunca
vou conseguir ter uma vida normal, eu tenho depressão”, porque aí você está
dando poder a uma doença, como aqueles que dizem “eu nunca vou ser feliz, eu
tenho câncer”. Existe por um lado a necessidade de falarmos sobre a depressão,
a tratá-la como uma doença e toda sua complexidade, fazer as pessoas perceberem
que nem sempre alguém que tem depressão, assim como alguém que está no
tratamento de câncer, ela se sentirá disposta a ir trabalhar, por questões
físicas, mas tornar isso um apoio para não se mover, para não se erguer, para
não lidar com as coisas que estão a sua frente.
Nós não podemos esperar que as
pessoas a nossa volta terão que nos compreender sempre, nos amar sempre, nos
ajudar sempre, nos acolher sempre, porque nós temos depressão. Não é porque eu
tenho depressão que agora todas as minhas atitudes devem ser toleradas, que eu
sou refém de mim mesma e o mundo deve ser curvar a mim. Uma coisa é
conversarmos sobre o assunto de maneira saudável e trazermos um ambiente que
seja saudável para quem sofre de depressão, como se fosse uma mera falta de
força, caráter, ou frescura, mas também a doença não pode ser justificativa
para nossa estagnação perante a vida.
Se esta é uma doença debilitante,
não podemos alimentá-la dando pano de fundo para que ela se propague, dando
espaço para que ela se fortaleça, ou seja, em muitos momentos é necessário
buscar em nós mesmos a força para levantar da cama, tomar um banho, cuidar de
nós mesmos, da nossa alimentação, para sairmos de casa, para nos conectarmos as
pessoas próximas a nós, porque estas coisas auxiliam nosso organismo a sair do
ciclo vicioso, ajudam o organismos a produzir as enzimas que precisamos para
reagir. Por mais tentador e delicioso que seja ficar dormindo para sempre, ou
ficar alimentando os pensamentos, que alimentam pensamentos, que alimentam
sentimentos negativos, ou comportamentos negativos como se expor a relações que
depois nos puniremos por elas, ou enchermos o nosso organismo de açúcar que por
um momento nos farão ter uma falsa sensação de melhora, para depois nos puxar
de volta ao abismo, ou não se alimentar como forma de punir a nós mesmos. Por
mais que estas atitudes degradantes sejam pungentes, precisamos cuidar de nós
mesmos.
Algo que a depressão me ajudou a
perceber é que a cura está em nós mesmos, na nossa vontade de mudar, de fazer
diferente, de compreender nossos processos e ela pode ser uma excelente
professora para isso, mas ninguém no mundo poderá fazer isso por você. Nossos
pais, amigos, médicos, todos podem tentar intervir, podem nos acolher, podem
nos medicar, mas se nós não quisermos, se esta iniciativa de sair do ciclo não
for nossa, tudo mais será paliativo, porque logo mais estaremos no mesmo lugar
do qual saímos. Então não adianta implorar para as pessoas que te ajudem,
porque esta ajuda só será verdadeira quando partir de você mesmo.
Por isso é tão importante ser
honesto consigo mesmo, eu tenho depressão, eu preciso de ajuda, eu não consigo
lidar com isso sozinho, buscar ajuda médica, psicológica, buscar maneiras de
cuidar de si mesmo de maneira plena, evitar os gatilhos que ativam crises,
evitar pessoas que nos puxam para baixo, evitar situações que nos levarão de
volta para sensações negativas, ou seja, é reprogramar sua vida como um todo. As
pessoas a sua volta podem ajudá-lo, podem tornar esta jornada mais leve, mas o
verdadeiro curador é você mesmo, porque ao fim nós somos os únicos que conhecem
profundamente a nós mesmos. Por mais redundante que possa ser, só nós dormimos,
acordamos, convivemos conosco, com nossos pensamentos, com nossas armadilhas,
por mais que um psicólogo te conduza, ele não pode obrigá-lo a enfrentar seus
demônios e você pode passar uma vida fugindo deles.
Tratar da depressão é um pacto
consigo mesmo, de tolerância, de amor, de respeito, de vida, pois a única pessoa
que estará conosco diariamente, em cada recôndito, em cada pensamento, em cada
alegria, tristeza, somos nós mesmos. Então olhe para o abismo o suficiente para
conhecê-lo, mas não se entregue a ele, porque o abismo não é você, talvez uma
mera porção, assim como a ponta do iceberg que vemos é apenas uma parte da
magnitude do que somos.



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