Estes dias estava conversando com
uma grande amiga e falando sobre algumas questões que ela tem passado e em
algum ponto isso me fez refletir sobre os ritos de passagem. Explico, as
antigas comunidades tinham como hábito a prática de ritos de passagem, que nada
mais são do que celebrar e marcar a passagem de uma pessoa de um estágio da
vida para outro.
Desta forma, quando um bebê
nasce, seu nascimento é celebrado, quando uma criança passa a ter a ter um
pouco mais de maturidade e começará a receber os primeiros conhecimentos da fé
de seus pais, o seu primeiro compromisso perante a sua religião, assim como a
primeira menstruação de uma menina, a primeira relação sexual, o rito de
maturidade, casamento, quando se tornam mães e pais, quando se tornam anciões e
por fim a sua morte.
Embora a nossa transição de um
estágio para o outro aconteça naturalmente, independente da realização de tais
ritos ou não, quando celebramos e nos despedimos daquela fase, aprendemos com
os que já passaram por ela, é como se disséssemos ao nosso corpo e ao nosso
cérebro que tomamos consciência daquela mudança e que estamos dispostos a
aprender com ela, assim como aceitamos os seus novos desafios.
Pode parecer bobagem, mas para
todos nós certos ritos de passagem são necessários, até mesmo para o fechar de
um ciclo, para um conscientizar de uma nova etapa, basta comparar com famílias
de pessoas desaparecidas, pois o fato de não ver os corpos de seus entes
queridos, deixa uma interrogação em seus subconscientes e isso pode fazer com
que inconscientemente alimentem uma esperança, que não consigam fechar aquele
ciclo, ainda que tenham passado muitos anos do ocorrido. Nós precisamos de
símbolos.
Fora que os ritos de passagem
além de terem esta importância de criar símbolos, também são uma oportunidade
de olharmos para aquele momento e celebrá-lo como algo natural, algo que já
passamos, ou algo que iremos passar, nos faz voltar as nossas lembranças daquela
época, de como foi vivenciar aquela experiência, assim como ter compaixão por
aqueles que estão naquela fase de transição, mas também uma oportunidade de
expormos nossos medos, angústias, alegrias, dúvidas e os maiores aprendizados
ao longo daquela fase. Se torna um momento de compartilhar, aprender e ensinar,
assim como acolher aquela pessoa a esta nova fase.
Por mais que existam hoje sites
que falem praticamente de tudo, ou livros, nada se compara a olhar nos olhos,
abraçar, trocar vivências, pois isso nos torna humanos, nos aproxima e mostra
que muitos dos nossos medos já foram vividos por pessoas que amamos e admiramos
como nossas mães, avós, amigas, enfim aqueles com quem desejamos partilhar
aquele momento.
A sociedade atual, apesar de ter
uma grande gama de informações disponíveis não nos ensina a passar por cada uma
destas fases da nossa vida, em especial da adolescência para a maturidade, como
da maturidade para a velhice, tanto que hoje vemos um grande número de idosos
abandonados, despreparados para a solidão da velhice, sem saber o que fazer com
estes longos anos fora do ambiente de trabalho e que as relações distantes e
cada vez mais fugazes da era digital, não nos preparam para viver.
Vemos hoje crianças com pressa de
serem “mocinhas”, buscando cada vez mais precocemente namorados, “ficadas”,
tento relações sexuais cada vez mais cedo e sem de fato saberem lidar com as
consequências desta “maturidade” antecipada. E então vemos jovens que não sabem
lidar com frustrações, com a dinâmica do mercado de trabalho e com o assumir de
responsabilidades e posturas, permanecendo na casa dos pais por mais tempo que
seria necessário. Por outro lado é uma grande quantidade de adultos se
submetendo a procedimentos cirúrgicos, a agentes químicos, numa tentativa de
manter a juventude, de esconder os traços do tempo como se isso fosse motivo de
vergonha, ou decrepitude.
Pouco a pouco estamos esquecendo
como lidar com as mudanças, a passar pelas transições do mundo moderno. Com tudo
tão rápido, mudando tão aceleradamente, não conseguimos acompanhar nossas
vidas, nossos corpos, nossas necessidades, respeitar os nossos corpos e ciclos,
vamos atropelando fase por fase e depois tentamos retardar o tempo e de repente
nos vemos frustrados com a nossa “falta de tempo”, mas ao fim esquecemos de
viver os momentos, sempre preocupados com o que teremos, ou com o que tínhamos,
mas nunca com o que temos.




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