Ritos de Passagem

terça-feira, 27 de junho de 2017 0 comentários

Estes dias estava conversando com uma grande amiga e falando sobre algumas questões que ela tem passado e em algum ponto isso me fez refletir sobre os ritos de passagem. Explico, as antigas comunidades tinham como hábito a prática de ritos de passagem, que nada mais são do que celebrar e marcar a passagem de uma pessoa de um estágio da vida para outro.

Desta forma, quando um bebê nasce, seu nascimento é celebrado, quando uma criança passa a ter a ter um pouco mais de maturidade e começará a receber os primeiros conhecimentos da fé de seus pais, o seu primeiro compromisso perante a sua religião, assim como a primeira menstruação de uma menina, a primeira relação sexual, o rito de maturidade, casamento, quando se tornam mães e pais, quando se tornam anciões e por fim a sua morte.

Embora a nossa transição de um estágio para o outro aconteça naturalmente, independente da realização de tais ritos ou não, quando celebramos e nos despedimos daquela fase, aprendemos com os que já passaram por ela, é como se disséssemos ao nosso corpo e ao nosso cérebro que tomamos consciência daquela mudança e que estamos dispostos a aprender com ela, assim como aceitamos os seus novos desafios.

Pode parecer bobagem, mas para todos nós certos ritos de passagem são necessários, até mesmo para o fechar de um ciclo, para um conscientizar de uma nova etapa, basta comparar com famílias de pessoas desaparecidas, pois o fato de não ver os corpos de seus entes queridos, deixa uma interrogação em seus subconscientes e isso pode fazer com que inconscientemente alimentem uma esperança, que não consigam fechar aquele ciclo, ainda que tenham passado muitos anos do ocorrido. Nós precisamos de símbolos.

Fora que os ritos de passagem além de terem esta importância de criar símbolos, também são uma oportunidade de olharmos para aquele momento e celebrá-lo como algo natural, algo que já passamos, ou algo que iremos passar, nos faz voltar as nossas lembranças daquela época, de como foi vivenciar aquela experiência, assim como ter compaixão por aqueles que estão naquela fase de transição, mas também uma oportunidade de expormos nossos medos, angústias, alegrias, dúvidas e os maiores aprendizados ao longo daquela fase. Se torna um momento de compartilhar, aprender e ensinar, assim como acolher aquela pessoa a esta nova fase.

Por mais que existam hoje sites que falem praticamente de tudo, ou livros, nada se compara a olhar nos olhos, abraçar, trocar vivências, pois isso nos torna humanos, nos aproxima e mostra que muitos dos nossos medos já foram vividos por pessoas que amamos e admiramos como nossas mães, avós, amigas, enfim aqueles com quem desejamos partilhar aquele momento.

A sociedade atual, apesar de ter uma grande gama de informações disponíveis não nos ensina a passar por cada uma destas fases da nossa vida, em especial da adolescência para a maturidade, como da maturidade para a velhice, tanto que hoje vemos um grande número de idosos abandonados, despreparados para a solidão da velhice, sem saber o que fazer com estes longos anos fora do ambiente de trabalho e que as relações distantes e cada vez mais fugazes da era digital, não nos preparam para viver.

Vemos hoje crianças com pressa de serem “mocinhas”, buscando cada vez mais precocemente namorados, “ficadas”, tento relações sexuais cada vez mais cedo e sem de fato saberem lidar com as consequências desta “maturidade” antecipada. E então vemos jovens que não sabem lidar com frustrações, com a dinâmica do mercado de trabalho e com o assumir de responsabilidades e posturas, permanecendo na casa dos pais por mais tempo que seria necessário. Por outro lado é uma grande quantidade de adultos se submetendo a procedimentos cirúrgicos, a agentes químicos, numa tentativa de manter a juventude, de esconder os traços do tempo como se isso fosse motivo de vergonha, ou decrepitude.

Pouco a pouco estamos esquecendo como lidar com as mudanças, a passar pelas transições do mundo moderno. Com tudo tão rápido, mudando tão aceleradamente, não conseguimos acompanhar nossas vidas, nossos corpos, nossas necessidades, respeitar os nossos corpos e ciclos, vamos atropelando fase por fase e depois tentamos retardar o tempo e de repente nos vemos frustrados com a nossa “falta de tempo”, mas ao fim esquecemos de viver os momentos, sempre preocupados com o que teremos, ou com o que tínhamos, mas nunca com o que temos.


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