Mulheres que correm com lobos
O livro mulheres que correm com lobos é um convite para despertar o seu lado selvagem, aquela voz adormecida dentro de você que clama por ser ouvida, aquele ímpeto que te faz dançar sob a lua cheia, que faz com que se entregue aos seus prazeres, desejos e libido, aquela vontade de ser ouvida, de gritar, de se libertar de tudo aquilo que te prende, priva, denigre, que impede que seja quem é em essência.
Se pudéssemos nos imaginar longe da sociedade, longe dos olhos julgadores de um mundo machista quem seríamos? Que roupas gostaríamos de usar? Será que atenderíamos a um padrão ou expectativa externas? O que diríamos para nós mesmas? O fato é que fomos aprisionadas ao longo dos anos, nos permitimos domesticar e pouco a pouco perdemos o nosso lado selvagem, livre, exótico, espontâneo, intuitivo.
Assim como os lobos somos seres de matilhas e uma vez separados, isolados, perdemos a nossa força, nossa essência, deixamos de reconhecer nosso “cheiro” e nossa identidade. Não é a toa que a sociedade faz com que as mulheres se dividam, se julguem, se meçam por roupas, penteados, acessórios, tudo aquilo que é vazio, estético, fugaz e enquanto isso eles aprisionam nosso espírito, pois não há nada mais forte que o pulsar da matilha, a união adquirida através da força, do empoderamento.
Levaram nosso corpo diante de caixas, fizeram nossos ciclos se tornarem máquinas, tudo que não cabia na caixa foi julgado e exposto, tudo aquilo que não a preenchia também, nos disseram como andar, como nos portar, que profissões escolher, que roupas usar, a estarmos sempre belas, maquiadas, dispostas, passivas, protetoras e preferencialmente a nos calar.
Foram anos e anos aprisionando nosso espírito em nossas caixas, mas ainda sim quando fechamos nossos olhos podemos ouvir aquele eco distante que nos chama, aquela canção que antes conhecíamos, o mistério das ervas, o poder dos ciclos e do sangue, a sabedoria das luas, o poder da maternidade, nos expurgaram de nossos próprios filhos e assim nos tornamos vazias.
Nos disseram que deveríamos atender a todos a todo momento, sempre sorrindo, pouco a pouco nossa terra foi sendo explorada e se tornara árida, vazia, inerte, nenhum fruto mais poderia nascer naquele solo, nos tornamos vazias de nós mesmas e ninguém consegue compreender este vazio que nos preenche, este medo que nos corrói, esta sensação de inadequação, de sermos infrutíferas, de não cabermos nesta sociedade, neste mundo, tiraram de nós nossos melhores dons e os tornaram proibidos e depois disseram que não éramos mais capazes.
Anos de castração, de tortura, violência, medo, solidão e sempre a serviço de todos, sempre esquecendo de nós mesmas e neste deserto árido vem a canção dos lobos, o tilintar de um espírito adormecido. Um convite a ouvir a natureza, a sermos natureza novamente e sentir seus ciclos, seu poder, seus sonhos, sua capacidade de dar e tirar a vida, de colocar os pés no chão e sentir a terra sob nossos pés pulsar, pois ela também é mãe, ela também sustenta, ampara, cura, renova, mas para tal é necessário dar o primeiro passo rumo ao desconhecido.
Como na jornada do tarot, para iniciarmos qualquer mudança é necessário o primeiro passo sem olhar para trás, o passo insensato, o passo sem se prender aos velhos grilhões, o se lançar do abismo, para que então como mago possamos descobrir novamente o nosso poder de criar.
Precisamos deixar para trás o medo que nos paralisa e fitar a esperança de um novo amanhã, onde mulheres não mais serão inimigas, que não mais se medirão por suas roupas, posses, sonhos e tão pouco insanidades, que sejamos tão somente livres e gregárias, pois a sabedoria das mães é o compartilhar, é o tecer, é o contar unidas as histórias que nos entrelaçam e talvez neste conto descobrir que cada uma de nós, de alguma forma, foi cerceada do direito de ser livre, de abraçar a sua essência e amá-la tal qual ela é.
Vamos reescrever nossa história e lançar novas sementes sobre este solo, para que amanhã aquelas e aqueles que vierem depois de nós possam encontrar um solo mais fértil e menos normatizado, com mais gratidão e menos cobrança, pois a lua não é aquela que distingue, mas sim aquela que ama todos os seus filhos em plenitude, pois não cabe a ela a julgar, mas sim proteger.
Que o sagrado, o selvagem dentro de nós possa ser despertado e que possamos partilhar de nossas verdades e feridas, pois elas nada mais são do que nossa própria história neste mundo que só deseja nos dividir e nos manter distantes da matilha! Uivem para lua e se entreguem a este convite de reencontro e redescoberta do ser “selvagem”...
Texto inspirado no livro "Mulheres que correm com os lobos" de Clarisse Pinkola Estés e no podcast Talvez seja isso de Mariana Bandarra e Bárbara Nickel
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