Converas Paralelas

segunda-feira, 12 de junho de 2017 0 comentários
           


           As vezes eu fico acompanhando algumas conversas de longe, porque sei que a minha visão será no mínimo polêmica e até mesmo porque não quero macular as relações profissionais em virtude de alguns posicionamentos que para mim são bem claros, mas em especial porque na conversa de hoje eu cheguei depois do assunto começado e não sei o que necessariamente ensejou tais conversas.
O fato é que vejo como é fácil macular o feminino, as mulheres e suas escolhas, por vezes conscientes e por vezes não necessariamente, mas sim vindas de padrões semeados ao longo de nossa história.
Por exemplo, alguns estavam questionando mulheres que casam por interesse, casando-se muitas vezes com homens bem mais velhos e cheios da grana. Veja, não estou dizendo que mulheres não possam casar meramente por interesse, claro que podem! Assim como homens também o fazem, isso vai de criação, de caráter em alguns casos, por vezes de uma escolha consciente mesmo e nenhuma das partes ali é tola o bastante para acreditar que foi por amor, é uma concessão de ambas as partes.
O problema é que vejamos, por exemplo nesta questão de casamentos por interesse, quem nos “ensinou” esta arte não foram necessariamente outras mulheres, mas castas que queriam manter sua riqueza entre determinadas famílias, que não queriam dividir poder e normalmente planejavam casamentos de meninas de 11, 12, 13 anos, com velhos, ou casamento entre duas crianças destas idades, tudo isso por interesse. Ou pais que para garantirem uma vida melhor para si mesmos, vendiam suas filhas por dotes caros, garantindo assim o futuro delas, mas em especial deles próprios.
Ao longo de nossa história podem pegar milhões de exemplos de casamentos forçados, arranjados, negociados, bem verdade o matrimônio era um negócio até bem pouco tempo atrás e ainda é para algumas sociedades, não se enganem! Porém ao contrário do que alguns possam dizer, isso não legitima o rebaixar da mulher, assim como “proteção” não legitima posse, num sentido de o marido se sentir dono de sua esposa a ponto de humilhá-la, violentá-la, castigá-la, tratá-la como um objeto, um enfeite, ou meramente como “parideira”.
Muitos confundem o ato de proteger como o ato de subjugar, de mandar, de controlar, mas ao mesmo tempo julgam natural o homem que procura fora do casamento por prazer, sob a alegação de homens são assim mesmo. Tantas vezes procuram fora por coisas fúteis como beleza, meninas novas, fantasias que julgam impróprias com suas esposas, mas não conseguem lidar com figuras femininas que fazem o mesmo que eles. Irônico não?
Se hoje existem tantas mulheres que priorizam a vida profissional, que se “mascunilizaram” ao longo dos anos, se tornando indiferentes ao amor, buscando meramente pelo prazer e diversão, que não buscam casamentos, que não acreditam no “felizes para sempre”, é porque tiveram excelentes professores e exemplos para acreditarem que isso não é possível.
Quantas filhas não viram suas mães chorando por serem traídas? Quantas filhas não viram suas mães apanhando de seus pais? Quantas filhas não viram suas mães sendo subjugadas e humilhadas por seus pais? Quantas filhas não foram abusadas por estes mesmos pais? Quantas filhas não tiveram a presença do pai de fato em suas vidas porque sua mãe é a segunda família que não pode ser assumida? Quantas filhas sequer conheceram seus pais porque estes não acham que tenham que assumir uma gravidez indesejada? Quantas filhas foram jogadas fora pelo simples fato de serem mulheres?
Então não sejamos hipócritas, por que os homens se surpreendem quando vêem mulheres assumindo as mesmas posturas que eles próprios assumiram ao longo de toda uma existência? Por que é baixo, vil, quando fazemos uso dos mesmos artifícios que eles sempre usaram? Como se julgar “pobres coitados” porque agora as mulheres não querem nada sério. Há há há. Por que será? Acho que se olhassem para os próprios umbigos e para os umbigos de seus pares, vocês sequer se fariam esta pergunta.
Tanto nos foi negado ao longo de toda uma existência, fomos violadas, violentadas, usadas, castigadas, punidas, assassinadas, tudo em nome deste espírito de posse, de força, de supremacia. Como julgar coitado um cara que casa com uma menina mais nova, belíssima? Ele sabe que é por dinheiro, ele se preocupa mais com o que ele terá ao lado dele para mostrar, do que com amor. Ela pode estar ali por dinheiro, mas ele está ali por interesse, então quem é pior do que quem?
Acho que deveríamos parar com tamanha hipocrisia e olhar para o rastro de sangue que existe ao longo da história. Claro que não estou dizendo que o rumo que algumas tomam é justificado, porém é facilmente explicado, é fácil de compreender reações radicais contra o patriarcado. E como já dizia o ditado, quem com ferro fere, com ferro será ferido!

Não acho que os meios justificam os fins, mas certamente toda ação tem uma reação em igual força e proporção, contudo acho que se os homens num geral fossem menos hipócritas e julgassem menos as nossas escolhas, quem são nada mais nada menos do que espelho das deles, o mundo poderia começar a caminhar numa direção mais equilibrada. 

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