Nascemos
mulheres, ou ao menos do sexo feminino e sem querer entrar em questões de
gênero e similares, não é a identificação com nosso sexo biológico que nos
torna mulheres, pois infelizmente o que nos faz com que percebamos esta
realidade, adequadas ou não a elas, são as feridas que são abertas ao longo do
nosso amadurecimento.
Sabemos
que somo mulheres porque nossos pais nos mandam vestir roupa quando ainda somos
tenramente pequenos, ainda que sequer saibamos sobre distinções, mas eles temem
por nós, pelo o que irão pensar, então enquanto mulheres temos que nos vestir,
nos portar adequadamente, sentar adequadamente, ainda que nada disso faça
sentido.
Então
nos tornamos seres que passam a existir aos olhos alheios, que não só de nossos
familiares, porque notamos que nos olham nas ruas, nossas roupas, nossas
pernas, nossas curvas, tudo é observado, quando não comentado em público. Das brincadeiras
mais “inocentes” como “que saúde”, as mais inomináveis.
Em
algum momento passam a sentir um direito de posse, de nos tocarem, de nos
abordarem, de nos agarrarem em festas, de nos julgarem pelo tamanho da roupa,
pelo comportamento e assim começam os pequenos ou grandiosos abusos. São
puxões, esbarrões, esfregadas, comentários, beijos, insinuações e tantas
pequenas coisas que em alguns momentos tememos andar em segurança.
Passamos
então a ouvir o sermão de que podemos engravidar, muito embora biologicamente
ninguém faça isso sozinho, mas toda a responsabilidade sobre a possível
criança, sobre a possível vida é nossa. Quem a carregará, quem a amamentará,
quem cuidará, quem será responsável pelo resto da vida, somos nós. Eles parecem
ter um direito subjetivo de escolha a respeito, então passamos a temer tudo
isso.
Quando
não somos a secretária quando abrem a porta e veem uma mulher, ou supõe que
você é que tem que servir o café, tirar os copos, lavar a louça, ou fazer o
almoço, cuidar da casa, porque biologicamente, lá atrás nascemos mulheres.
Se
temos uma opção sexual diferente não é por gosto, mas porque alguém não fez
direito, porque estamos entediadas, ou sei lá, alguma razão que não seja tão
simplesmente gostar, preferir, querer, desejar. E falando em desejo, se
desejamos, se traímos, se gostamos de sexo, isso sempre será olhado com olhos
de vulgaridade, depravação e para eles todos os troféus.
É
triste perceber-se mulher nestas tantas realidades, perceber-se mulher pelas
feridas que passamos dia a dia, até em algum momento crermos que tudo isso é
normal, que sempre estaremos aquém ou que teremos que nos submeter, aceitar,
calar, será?
Gostaria
que as meninas se descobrissem mulheres por sua sensibilidade, por seu dom de
cuidar, nutrir, ainda que não através da maternidade. Por sua capacidade de
criar, de sonhar, de crer no melhor das pessoas. Através da doçura do olhar, ou
do ar de sedução tão peculiar.
Que
elas se descobrissem mulheres por serem livres para ousarem, para gostar de
quem ou o que gostam, seguir as profissões que desejam, ser tão bem remuneradas
quanto outros tantos medianos, que seu trabalho fosse medido por esforço,
dedicação e que não tivessem que pedir ajuda, que a ajuda em casa fosse algo
natural.
Talvez
esta ainda seja uma realidade tão distante, mas gostaria que as mulheres
pudessem se empoderar novamente, se descobrirem livre, plenas, diversas em sua
totalidade e belas em todas as suas formas e cores. Que não precisassem
competir entre si e que pudessem tecer juntas aprendizado, compreensão,
compaixão e esperança, para que um dia outras mulheres possam se reconhecer por
si mesmas.
Que
não sejamos apenas norteadas por nossas feridas, mas por nossas verdades, por
nossa essência, pelo fato de sermos simplesmente quem quisermos ser...
Luanin



2 comentários:
E são feridas que vêm ao longo de nossa jornada... Às vezes tão profundas q basta uma cutucada para q abram novamente. A cura e empoderamento é um trabalho contínuo e um deslize faz com q nos esqueçamos de nós. Um novo relacionamento, a maternidade um novo emprego, o dia a dia, são suficientes para nos afastarmos da nossa essência para nos ajustarmos ao externo. O desafio é harmonizar nossa mulher, com a pressão de uma sociedade q caminha a passos de tartaruga nesse campo.
Que A Senhora do Oceano de Sangue permita que eu mantenha a força, que eu possa continuar com minha cura, com o resgate do Sagrado Feminino. Que juntas, possamos ouvir nossos corpos, nossas vontades, nossos desejos, nossa verdade. Empatia, sororidade, irmandade... A Teia.
BB
Ardat Lili (Marcela Módena Coutinho)
Exato Ardat! São anos e anos de feridas expostas, abertas, de uma tendência a nos objetificar, nos minimizar, então será uma jornada longa de volta, mas não podemos desistir e sim persistir nesta cura, nesta busca por nós mesmas, pela "re-sacralização" da mulher, de nos empoderarmos, nos reconhecermos e nos reaproximarmos, pois somos todas parte da mesma teia, da mesma beleza e das mesmas feridas.
Postar um comentário